sábado, 16 de junho de 2012

Sobre-protecção

A filha de 4 anos de uma amiga minha perguntou-lhe se as princesas também faziam cocó. A minha amiga riu-se, talvez mais por cumplicidade do que por piada. 
As histórias de contos de fadas servem para entreter, para encantar. Tais como os filmes, histórias de encantar para adultos. É apenas entretenimento. Até mesmo quando baseadas em factos reais ou em histórias reais, têm sempre umas pinceladas desse encantamento que nos apaixona, seduz, que nos apela ao sentimento. Que nos faz sonhar e gostar do filme. Se nos toca, relembramos. Ninguém faz filmes (ou escreve histórias) para que sejam esquecidos.
Ainda bem que a filha da minha amiga, apesar de seduzida por todo o glamour que uma princesa possa ter, teve o insight de que até essas criaturas divinas são capazes de algo que cheira mal, que não é bonito. Ainda bem.
Um adulto que ainda acredita em contos de fadas, no mínimo é um fruto amadurecido de um lar sobre-protegido, de uns pais que não o souberam preparar para a Vida. 
No entanto, a culpa é a meias. Os pais tentam fazer o seu melhor, na maioria dos casos, mas os filhos também têm a sua quota parte na sua educação. Educar é uma relação dinâmica e de transformação mútua. Os filhos aprendem e desenvolvem-se, mas os pais também. Os filhos recebem a educação que os pais lhes dão, mas também têm a responsabilidade de pensar por si. De olhar em redor, aprender com os erros dos outros, descobrir por si próprio. 
Os pais das últimas gerações, felizmente não todos, sobre-protegem os filhos. Dão-lhes tudo, para que não lhes falte nada. Compram brinquedos em demasia. Ralham pouco, para não traumatizar. Mimam demais, para que os filhos gostem deles e os vejam como bons pais. Preocupam-se em agradar aos filhos, evitam as frustrações, os sentimentos de fracasso, desculpam todos os maus feitos (a culpa é sempre atribuída a terceiros) e fazem os filhos acreditar que um conto de fadas lhes é devido pela Vida. 
Daí termos adultos tão deprimidos. Daí tanta gente recorrer aos psicotrópicos. Daí termos pessoas tão infelizes e revoltadas com a Vida. Como se esta lhes devesse qualquer coisa. Como se viver fosse demasiado penoso, desagradável. E não é desagradável, apenas não é fácil.


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